Crueldade à mesa…

22 08 2010

publicado por Eulália Jordá Poblet

O Natal/Ano Novo é um tempo em que quase ninguém pensa nos bichos, apenas os digere aos montes. Para essa execução de animais orquestrada em quase toda a geografia do império humano sem que muitos questionamentos sejam levantados, imaginei um mote: “holocausto de fim de ano”. Dá desgosto e repulsa ao olhar previamente sensibilizado para o sofrimento de outras espécies vê-las mortas sobre a mesa, estripadas, desossadas, tratadas como meros objetos, apenas para dar prazer a indivíduos pertencentes à espécie dominante instalada na supremacia da esperteza e inconseqüência. Mentes brilhantes da política, das igrejas, da ciência, do jornalismo se amesquinham nessa hora dita “gastronômica”: ninguém aparece para oferecer aos animais uma frase que seja de defesa.

Nessa época, as mesas se enchem de pernis ao molho de macadâmias, perus, porcos inteiros. Cerejas, ameixas, tâmaras e nozes complementam a decoração “Kitsch” desse festim eticamente duvidoso. Se olhos fossem saborosos, com certeza as pessoas comeriam olhos de animais enfeitados com hibiscos.

Prima primeira dos idos totalitários, somente a tecnocracia, com sua espetacular capacidade destrutiva, consegue matar em tão pouco tempo esse número elevadíssimo de animais. É claro que se não houvesse tantos mercados, não se interessaria em fazê-lo.

Mas os mercados são compostos por indivíduos incapazes de se colocar no lugar-e-dor do outro, perpetuando a demanda artificialmente ampliada pelos empresários de “gêneros alimentícios”.

Para que ninguém tenha sua consciência “incomodada”- as pessoas têm horror de serem removidas da placidez de seu conforto-, utiliza-se a velha e eficaz fórmula nazista: inicialmente removem-se os matadouros, verdadeiros campos de concentração, para bem longe dos olhos da população.

Em ato subseqüente, há o assassinato de cada animal de forma camuflada, seu cadáver peregrinando por várias etapas de maquilagem, em diversos departamentos, chegando ao final da linha de produção irreconhecível, quando uma criança não conseguirá mais fazer a correlação entre uma coxa de galinha plastificada e o pintinho vivo com o qual brincou.  Chamarei a esse fenômeno “esquizofrenia tecnológica”.

Enquanto isso, empresas de excepcional lucratividade se movimentam nervosamente por detrás do assassinato dos animais, transitando desde a ingênua sopinha de carne para o bebê humano ao escancarado “baby-beef”, que nada mais é que bife de bebê assassinado de outra espécie.

A indústria que movimenta bilhões e bilhões de dólares/euros/reais/outros, tem seus pés de barro apoiados na morte rotineira e massificada dos animais. O Natal desnuda ainda mais esse nazismo: entre baladas suaves falando de “paz” e badalos de sininhos amorosos, as empresas afiam suas lâminas, decepam pescoços, patas e pés. Esses corpos mutilados desejavam viver e, no entanto, foram interrompidos e devorados sem nenhuma culpa por parte dos consumidores, que jamais se perguntaram qual o significado de um matadouro. Hannah Arendt, que acompanhou como jornalista o julgamento de Eichmann, concluiu que o nazista que havia enviado tantos judeus para a morte não era um homem perverso ou um monstro, como se queria provar. Era apenas um funcionário mediano, incapaz de refletir sobre seus atos ou fugir a clichês burocráticos.

Infelizmente, a maioria das pessoas do mundo cotidiano, esse mundinho nosso de cada dia, é pelo menos em relação aos animais, como Eichmann.

O fluxo contínuo de mortes dos bichos nesse tipo de sociedade em que tudo é banalizado dá a falsa impressão de que o tradicional é algo sempre “normal” e isento de delito. Pouquíssimos conseguem ter espírito crítico em relação à paisagem imoral que se oferece além das mesas de Natal e fim de ano.

Bibliografia:

http://www.metro.org.br/eulalia/crueldade-a-mesa
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